[Do gr. sinapsis, 'ação de juntar'.] S.f. Conexão entre dois neurônios vizinhos, possibilitando o tráfego de impulsos nervosos.

7.9.04

Dia nublado, sete de setembro.


veja que vez ou outra o reflexo mostrado pelo espelho não é o nosso. Que fazemos então?




Yom Kipur anda chegando, é época de expiar os pecados. Vivendo expurgo os meus sem muita dificuldade. Vivendo e esperando o que nunca chega e que só figura na realidade impressa nas letras grandes, pretas dos livros de poesia.

31.8.04

Dia da melancolia


só a letra.

Samba em Prelúdio_ Vinícius de Moraes



Eu sem você
Não tenho porquê,
Porque sem você
Não sei nem chorar,
Sou chama sem luz,
Jardim sem luar,
Luar sem amor,
Amor sem se dar.

Eu sem você
Sou só desamor,
Um barco sem mar,
Um campo sem flor,
Tristeza que vai,
Tristeza que vem,
Sem você, meu amor,
eu não sou ninguém.

Ah, que saudade,
Que vontade de ver renascer nossa vida,
Volta, querida,
Os meus braços precisam dos teus,
Teus braços precisam dos meus.
Estou tão sozinho,
Tenho os olhos cansados de olhar para o além,
Vem ver a vida,
Sem você, meu amor,
Eu não sou ninguém.
Sem você, meu amor,
Eu não sou ninguém.

30.8.04

Dia Oxalá


deus deve assistir à Sua criação como nós a peixes num aquário. E deleitar-se com as peripécias e amaras experiências que a nós é facultado criar, as lágrimas e o pus, juntamente com o cheiro putrafato da carne cardíaca enegrecida por aqueles sentimentos filhos da puta.




Oxalá_por Madredeus

oxalá, me passe a dor de cabeça, oxalá
oxalá, o passo não me esmoreça

oxalá, o Carnaval aconteça, oxalá
oxalá, o povo nunca se esqueça

oxalá, eu não ande sem cuidado
oxalá eu não passe um mau bocado
oxalá, eu não faça tudo à pressa
oxalá, meu Futuro aconteça

oxalá, que a vida me corra bem, oxalá
oxalá, que a tua vida também

oxalá, o Carnaval aconteça, oxalá
oxalá, o povo nunca se esqueça

oxalá, o tempo passe, hora a hora
oxalá, que ninguém se vá embora
oxalá, se aproxime o Carnaval
oxalá, tudo corra, menos mal



Dia La Nouba


esse título aí acabei de tomar emprestado dum espetáculo do Cirque du Soleil.

É, senhoras e senhores, Deus lambuza-se contemplando a confusão sísmica de Sua criação, como a peixes num aquário.

Oxalá_por Madredeus

oxalá, me passe a dor de cabeça, oxalá
oxalá, o passo não me esmoreça

oxalá, o Carnaval aconteça, oxalá
oxalá, o povo nunca se esqueça

oxalá, eu não ande sem cuidado
oxalá eu não passe um mau bocado
oxalá, eu não faça tudo à pressa
oxalá, meu Futuro aconteça

oxalá, que a vida me corra bem, oxalá
oxalá, que a tua vida também

oxalá, o Carnaval aconteça, oxalá
oxalá, o povo nunca se esqueça

oxalá, o tempo passe, hora a hora
oxalá, que ninguém se vá embora
oxalá, se aproxime o Carnaval
oxalá, tudo corra, menos mal




Ah, tempo filho da puta.

22.8.04

Dia le soleil


determinados sentimentos não dificílimos de serem metabolizados, especialmete se são recorrentes.

E ficamos nós aqui, como andorinhas no fio.



15.8.04

Dia le fleur


transcrever o que alguém disse é muito mais simples. E poupa tempo.

Clarice Lispector



Quero Escrever o Borrão Vermelho de Sangue



Quero escrever o borrão vermelho de sangue
com as gotas e coágulos pingando
de dentro para dentro.
Quero escrever amarelo-ouro
com raios de translucidez.
Que não me entendam
pouco-se-me-dá.
Nada tenho a perder.
Jogo tudo na violência
que sempre me povoou,
o grito áspero e agudo e prolongado,
o grito que eu,
por falso respeito humano,
não dei.

Mas aqui vai o meu berro
me rasgando as profundas entranhas
de onde brota o estertor ambicionado.
Quero abarcar o mundo
com o terremoto causado pelo grito.
O clímax de minha vida será a morte.

Quero escrever noções
sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua:
nada tenho mais a perder.




26.7.04

Dia chuvoso, abençoado por Joseph Conrad


as migalhas foram deixadas e agora estão sendo recolhidas, queimadas, como se me preparasse para Pessach. Em Pessach, as migalhas todas são recolhidas, queimadas, abrindo espaço para um período novo cujas frações de eternidade estão fadadas - como sempre - a serem completamente diferentes umas das outras.


 
 


Walking Around_

|Pablo Neruda.

Acontece que me canso de meus pés e de minhas unhas,
do meu cabelo e até da minha sombra.
Acontece que me canso de ser homem.

Todavia, seria delicioso
assustar um notário com um lírio cortado
ou matar uma freira com um soco na orelha.
Seria belo
ir pelas ruas com uma faca verde
e aos gritos até morrer de frio.

Passeio calmamente, com olhos, com sapatos,
com fúria e esquecimento,
passo, atravesso escritórios e lojas ortopédicas,
e pátios onde há roupa pendurada num arame:
cuecas, toalhas e camisas que choram
lentas lágrimas sórdidas.


É assim que te quero, amor,
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas
os cabelos e como
a tua boca sorri,
ágil como a água
da fonte sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada,
Ao pão não peço que me ensine,
mas antes que não me falte
em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde
vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz alumie,
e também não peço à noite explicações,
espero-a e envolve-me,
e assim tu pão e luz
e sombra és.
Chegastes à minha vida
com o que trazias,
feita
de luz e pão e sombra, eu te esperava,
e é assim que preciso de ti,
assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir
o que não lhes direi, que o leiam aqui
e retrocedam hoje porque é cedo
para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor, uma folha
que há-de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nosso lábios,
como um beijo caído
das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura
de um amor verdadeiro.


Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.


Dois amantes felizes não têm fim nem morte,
nascem e morrem tanta vez enquanto vivem,
são eternos como é a natureza.


Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.
Quero-te só porque a ti te quero,
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te,
como um cego.

Tal vez consumirá a luz de Janeiro,
seu raio cruel meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego,
nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero amor,
a sangue e fogo.


Nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.







24.7.04

Dia sei lá o número


esses sentimentos últimos fogem a dicionários e a regulamentos vários. Não carregam um nome que possa lhes adjetivar conforme o merecimento; beiram a torpeza e carregam à loucura e não sabe-se o que fazer deles nem como deles ver-se livre.

É um fardo legado ao nosso fado por uma instância superior que vê sua crição num aquário grande e redondo.